Azedou a maionese – Madero e a face perversa das pestes.

Junior Durski, presidente do Grupo Madero e JerônimoMisturar negócios e opiniões políticas  nunca dá um bom caldo! Salvo raras exceções, empreendedores devem manter distância da classe política e seus embates ideológicos.

Nos dias atuais, a pandemia tem despertado o melhor e o pior do ser humano. O diminuto inimigo vem fazendo estragos e desmoronando todo um conjunto de crenças e valores que fazem a alegria do mundo pós moderno. A quarentena, o sofrimento das mortes, a impotência diante de um inimigo visível apenas sob a lente potente de um microscópio, tudo isto vem revirando os conceitos da sociedade atual.

Estamos diante de uma resposta da natureza? Numa pausa forçada desencadeada pelos excessos e desmandos da industrialização? Teorias das mais diversas apontam para razões e sentimentos que vão do absurdo ao mais completo nonsense. Mas o fato é que esta pandemia nos remete aos medos e anseios de uma peste que aconteceu em 1127. Mais precisamente, na cidade de Veneza. A “sereníssima” como a chamavam os antigos.

Tempos de Hanseníase e da primeira quarentena de que temos notícia. Tempos de desespero, dor e apelos religiosos. Mergulhado no obscurantismo das crenças e da ditadura religiosa, homens e mulheres não viam outra solução senão culpar os céus e acreditar nas bestas do inferno.

É somente em outra epidemia, desta vez a bubônica, que se passou a culpar os homens; mais precisamente os judeus. Longe de entenderem que a pulga transmitia a peste. Homens e mulheres, geralmente de bem, passaram a culpar os judeus pela transmissão. A famosa peste negra dizimou entre 75 a 200 milhões de pessoas.

Qual sua semelhança com a nossa “moderna” pandemia? O fato de termos de lavar as mãos, evitar aglomerações, higienizar o ambiente que vivemos e nos isolar na tão propalada quarentena. Regras antigas para tempos modernos!

É verdade que naqueles tempos mal sabíamos a importância da lavagem das mãos. E muito menos que a bactéria Yersinia Pestis, que afeta principalmente os roedores, elegesse as pulgas como seu meio de transmissão. Depois de se fartarem do sangue destes roedores as pulgas procuravam outros locais para seu festim. Transmitindo aos humanos a Yersinia Pestis.

O que nos afasta e nos aproxima destes tempos? Como num caleidoscópio as razões desta pergunta se aproximam e se afastam numa rapidez que nos lembra o principal motivo desta quarentena que enfrentamos hoje: A rapidez com que o vírus se espalha e infecta.

Nos tempos da peste negra ainda estávamos longe do mercantilismo e nem sequer, acredito, o mais ganancioso dos senhores feudais, poderia imaginar o capitalismo tal como o conhecemos nos últimos cinquenta anos. Mas assim como nossos “capitalistas” de hoje, os burgueses daquela época não aceitavam qualquer interrupção das suas atividades. Numa luta inglória, homens e ratos tombavam aos milhares. A fome crescia e a mais remota chance de comércio se perdia em meio aos caixões. Havia quem vociferasse nas praças e altares os excessos e pecados cometidos. Outros apontavam o dedo e nomeavam inimigos: Judeus, mouros, ciganos…

Sem aceitar nossas suplicas e choro o vírus avança. Tal como naqueles tempos.

Como naqueles tempos, vozes se erguem. Algumas em nome da ciência, da economia e das atividades que não podem cessar. Outras, mais obscuras e ignorantes, atribuem tudo ao pecado e nossa falta de santidade. Como se a luta e a dor de ser humano não revelassem uma certa divindade em nossos gestos. Como no gesto do padre que morre ao doar seu respirador ao jovem que sofre no leito ao lado.

Mas o fato deste artigo ter sido escrito é que uma voz, num mundo pleno de recursos e avanços inimagináveis aos homens da peste de 1127, lembra a voz do burguês daqueles tempos. A voz de Junior Durski, proprietário da rede Madero, ainda repete os mesmos anseios ignorantes daqueles tempos. Não com a mesma ênfase, que é peculiar aos que seguram o chicote, mas com a mesma convicção daqueles que empreendem economicamente nos dias de hoje. Tal como os burgueses do século XII, esquecendo-se da ciência e mantendo a errônea certeza de que o dinheiro pode mais que a vida:

“O Brasil não pode parar dessa maneira, o Brasil não tem essa condição. As consequências serão muito maiores do que as pessoas que vão morrer por conta do coronavírus”…  (Junior Durski – Proprietário da rede Madero)

 

texto de: Marcel Pinie – 24/03/2020

giuseppe.jpegPS: Este texto é uma homenagem ao homem que demonstrou, com um gesto tremendo, a divindade e capacidade do ser humano em sentir compaixão. Esta é a verdadeira caracteristica que nos diferencia dos animais. Minha mais sincera homenagem ao padre Giuseppe Berardelli que morreu hoje após doar o respirador que usava na UTI para um paciente mais jovem que também estava com covid-19.

 

 

 

 

O Mal de Caravaggio – Editora Chiado

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Será lançado, ainda este ano, pela Editora Chiado, o livro O Mal de Caravaggio, do escritor Marcel Pinie, cuja história traz como tema principal a falsificação de uma Obra Prima do século XVII, desaparecida no final da segunda guerra mundial.

A trama possibilita ao leitor uma viagem pelo mundo das artes, sobretudo ao mundo da pintura de Caravaggio e das grandes falsificações. 

Em primeira mão publicamos a capa do livro. Há pouco tempo atrás publicamos uma entrevista com o autor.  Fica a dica.

LEILÃO AIC ANTIGOS – Amanhã 10/02/2020 – AIC Auctions tomorrow! Visit and give your bid.

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Amanhã tem leilão no site da AIC. Não deixe de conferir as ofertas e dar o seu lance.  10/02/2020 – 20:30 PM /

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Entrevista com Marcel Pinie – O Mal de Caravaggio

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Em Abril de 1945, Ivan konev, Coronel General do exército russo, avança com suas tropas contra Berlim. Entre os alvos arruinados está o museu onde o quadro de Caravaggio, “São Mateus e o Anjo” – a primeira versão – ficava exposto.

Novembro de 1989, queda do muro de Berlim, um casal se beija em meio aos festejos na Alexanderplatz. Será este casal, o responsável pelo “ressurgimento” da pintura desaparecida de Caravaggio. Marcel Pinie trata de temas espinhosos quando se trata do mercado de artes. Um mundo tão agitado quanto o dos espiões de John Le Carré, ele brinca. Após uma hora e meia de conversa, fica claro que Pinie não é apenas um escritor mas um sobrevivente deste meio. Confira a seguir, a entrevista do autor.

Pergunta – Podemos dizer que Janus é um desajustado?

Marcel Pinie –  Janus é um sobrevivente da hipocrisia em que vivemos. Obviamente que ele escolheu ser um falsário mas o que ele revela é uma parte bastante significativa daquilo que chamam “mercado de arte” e suas vicissitudes.  Penso que nestes tempos de consumismo desenfreado e selfies o que muitos buscam são 15 minutos de fama. Tempos em que a assinatura do artista vale mais do que sua própria obra. O que vale é a forma e não o conteúdo! Qualquer um que não concorde em viver assim deve se sentir um desajustado nos dias atuais.

Pergunta – Você ambientou a trama entre a queda do muro de Berlim e o fim da antiga URSS. Há alguma razão especial para isto?

Marcel Pinie –  Este foi um período bastante importante para o século XX e para a definição do mundo contemporâneo. Note que apesar do final da guerra fria, ainda sentimos e vivemos os reflexos da segunda guerra mundial e da polarização entre os EUA e a “URSS”. O mundo mudou, no que diz respeito a tecnologia e economia, mas não acredito que a chamada “guerra fria” tenha desaparecido entre as grandes potências. Há muros invisíveis muito mais resistentes em varias partes do mundo e em muitos setores da sociedade.  Há inclusive líderes que falam, no concreto, em construção de muros e etc… (risos). Culturalmente, acredito que estamos muito mais pobres. Especialmente nos países subdesenvolvidos. Houve uma maior liberdade? Acho que não sou capaz de responder esta pergunta. Mas acredito, piamente, que em certos aspectos, dentro da trama do livro, a queda do muro seja apenas uma licença poética e uma forma de mostrar como a Alemanha absorveu seus antigos nazistas e todo um sistema de informação.

Pergunta – Para o sr. a arte teria se tornado um mercado como qualquer outro nos dias de hoje?

Marcel Pinie –  Mais do que nunca eu lembro de Andy Warhol. Foi ele quem disse, isto ainda nos anos 60, que todos teríamos quinze minutos de fama. E foi ele quem transformou latas de conserva e cifrões em ícones da Arte POP. É bem provável que ele adoraria ter um celular nas mãos. Vivemos hoje num mundo comercial. Tudo pode e deve se transformar em um “nicho de mercado”.  Acontece que antes a Arte tinha um papel importante até mesmo na contestação do status quo. Hoje a arte é um comércio, bastante lucrativo e que mais procura agradar do que contestar. Não temos nem mais aquela figura do Mecenas, dos legados e etc…, que foram responsáveis pelas grandes coleções e Museus fundados mundo afora. Hoje, basicamente, tudo resume-se a glamour e barulho na mídia. Ou seja, assinaturas e ostentação. Um artista, hoje, vale pelo barulho que causa ou por aquilo que constroem sobre ele na mídia. Independente de talento ou raciocínio, o “artista” é colocado acima da Obra. Estão colocando na parede uma assinatura, uma moda. Não há prazer estético ou representatividade. Em um outro aspecto, bastante negativo, a arte transformou-se em uma lavanderia para o dinheiro sujo. Nada mais POP do que uma embalagem de sabão em pó!

Pergunta – O sr. teve contato com algum falsário para compor o personagem de Janus?

Marcel Pinie – Obviamente que sim. Para escrever sobre determinado tema é preciso  conhecer ou vivenciar determinadas situações. Isto não quer dizer que o autor tenha que ser um falsário ou até mesmo um espião, como no caso de John Le Carré que atuou no serviço secreto quando era jovem e até hoje tem de se justificar. Mas durante minhas pesquisas acabei me aprofundando no assunto. Conhecendo os meandros deste mercado.

Pergunta –  A ideia central do seu livro é a beleza?

Marcel Pinie – Acho que no final de tudo, esta é a força motriz da arte. Seja na literaturaa, na música, na pintura ou qualquer outra manifestação. O conceito de beleza é relativo, haja visto o que escreveu Mishima e Susan Sontag, para que tenhamos um exemplo do vasto aspecto que isto abrange. Muitas vezes, em virtude da nossa condição humana, esta beleza pode ser manipuladora e até mesmo mortal, como no caso do livro. Mas eu prefiro acreditar que ela sempre estará na simplicidade. Talvez seja a única coisa que o “homus corporativus” não tenha conseguido manipular 100%.

Pergunta – Como o sr. vê a atual situação política e cultural do Brasil?

Marcel Pinie – Muito complicada. O Brasil é um País de ficção, eu diria. Nem misturando Dalí e Gabriel García Márquez nós conseguiríamos resumir. Eu, particularmente, acredito que estamos recebendo a conta de décadas de falta de educação e governos corruptos. A educação no Brasil piorou ao invés de melhorar. Como consequência disto a violência, a miséria e a falta de perspectiva tomaram conta. Temos um País dividido, como torcidas de futebol, um presidente que desconhece sua função e uma desigualdade econômica imensa. Fica complicado imaginar algo diferente. Talvez eu seja pessimista demais mas estou com medo de que o Brasil afunde de vez. Este presidente, Bolsonaro, está conseguindo erguer um muro entre o Brasil e o resto do mundo.  Ele chama isto de “soberania” mas no fundo é o ápice da nossa ineficiência. Não dá para acreditar em um País que ignora a educação e o desenvolvimento cientifico. Estas duas coisas deveriam ser prioridades. Mas o que podemos fazer… quando o próprio presidente acredita que a terra é plana (risos).

Pergunta – Quem foi Caravaggio?

Marcel Pinie –  Um desajustado (risos)! Não é privilégio só de hollywood ou da cultura de massa criar personagens desajustados. Caravaggio foi um desajustado, na vida real,  e acredito que um típico praticante da filosofia “sexo, drogas e rock’n’roll”. Guardadas as devidas proporções, Caravaggio, enquanto artista, não aceitou muito as regras do seu tempo e lutou para que sua obra seguisse livre das amarras impostas pelo gosto e pela Igreja da época. Caravaggio protagonizou diversos escândalos, matou um homem e utilizava prostitutas e bandidos como modelos em suas composições religiosas. Mas o mais importante, apesar de ter permanecido séculos no ostracismo,o interesse na sua obra ressurgiu na década de 50, e continua tão forte quanto a influência que exerceu em Diego Velázquez e outros. De certa maneira, Janus (o personagem do livro) é um Caravaggio. Sempre haverá Caravaggios enquanto houver sonhadores e inconformados.

Pergunta – Como foi que o sr. conheceu Polanski?

Marcel Pinie –  Anos atrás, conheci Polanski em Paris, através de uma amiga. Eu já era fã dos filmes dele. Na verdade a atmosfera que ele cria em torno dos personagens é sua verdadeira maestria. Polanski, assim  como Caravaggio, é o tipo de pessoa que causa fascínio pela personalidade que exibe. Esqueça o cineasta, Polanski vai além. Foi através dele que conheci algumas figuras que serviram de modelo para os personagens do meu livro. No fundo, se você analisar, os filmes de Polanski também tratam da beleza e dos perigos que ela esconde. Posso dizer que Busca frenética (Frantic, 1988) tem a atmosfera que inspirou o meu livro desde o início. Mas na época eu nem imaginava escrever um livro sobre um falsário. Muito menos que Polanski iria ser um dos meus leitores(risos).

Pergunta – Existe a possibilidade do livro tornar-se um filme?

Marcel Pinie – Sou um cinéfilo de carteirinha. Não acredito que alguém tão influenciado pela linguagem cinematográfica, não capte ou apresente elementos desta arte em sua criação. O cinema tem uma construção narrativa própria. Há livros que quando lidos se transformam em um filme na cabeça do leitor. Mesmo que o autor não tenha pensado nesta possibilidade. Outros, jamais deveriam se transformar em filme. É um tiro no escuro. De qualquer forma, no filme projetado em minha cabeça, desde quando comecei a escrever a história, imagino-o um filme Noir e com uma atmosfera que só um diretor como Polanski poderia criar.

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Peter J. Mancini é  repórter das principais agências de notícias do mundo. A entrevista foi distribuída pelo New York Times Syndicate.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Arte e ciência na Lava Jato – Entrevista com o Dr. Fábio Augusto Da Silva Salvador

leica2É bem provável que o mundo das artes não seja mais o mesmo após o advento da Lava Jato, no Brasil, e do surgimento da Orion Analytical nos EUA. Uma nasceu da necessidade de grandes colecionadores se defenderem das armadilhas do mercado de arte internacional. Armadilhas, estas, que se tornaram tão sofisticadas quanto as técnicas utilizadas para detectá-las, e que causam prejuízos milionários.

A outra, no caso do Brasil, a operação Lava Jato, deparou-se com inúmeras obras de arte sendo utilizadas para lavar dinheiro. Um escândalo de proporções épicas e cujos valores ainda continuam sendo apurados. Até então, o mercado de artes no Brasil seguia seu caminho longe dos holofotes. Mas a necessidade, mãe de todas as urgências, fez surgir uma área extremamente especializada na Polícia Federal do Brasil. É aí que entra em cena um Perito Criminal Federal. Um geólogo, com mestrado e doutorado em Engenharia Mineral, interessado na composição química dos pigmentos e na importância desta carga mineral associadas às obras de arte. Como perito criminal, o Dr. Fábio Augusto da Silva Salvador, necessitava autenticar e valorar as obras de arte que eram apreendidas, na Operação Lava Jato, através de métodos científicos.

O tipo de material, os efeitos do tempo, tudo isso tem utilidade forense. Ainda que a química de uma obra possa ser imitada, é quase impossível simular os efeitos do tempo. O que a PF busca desde o início da Operação Lava Jato, é um trabalho mais objetivo possível, fugindo daquela análise que diz: “‘Isso tem a cara desse artista” – É justamente este trabalho que coloca a Polícia Federal do Brasil, hoje, entre as maiores instituições do mundo quando o assunto é Perícia em Obras de arte.

A necessidade dos peritos da Lava Jato é investigar o valor da obra, para apuração de desvio de recursos. Mas para chegar ao valor precisam saber se a obra é autêntica ou não. O que demanda um tremendo esforço científico. Não é fácil detectar se o vermelho tem mercúrio. Se há chumbo num branco. O branco de chumbo era uma pigmento usado até meados dos anos 1950 no Brasil. Depois passou a ser substituído pelo dióxido de titânio. Ou seja, é um pigmento que nunca irá aparecer em obras anteriores à 1920. Estes e outros desafios são enfrentados com extrema competência e responsabilidade pelos peritos comandados pelo Dr. Fábio.

A seguir, publicamos na íntegra, a entrevista que realizamos com o Dr. Fábio Augusto da Silva Salvador, Perito Criminal Federal e Diretor Técnico-Científico da Polícia Federal no Brasil.

1) Poderia nos falar da sua formação e da sua trajetória profissional? Como o senhor avançou da Geologia às Obras de arte?
Sou Geólogo, com Mestrado e Doutorado em Engenharia Mineral pela Universidade de São Paulo. Através da Geologia Econômica, comecei a me inteirar da química dos pigmentos e da importância da carga mineral associada às obras de arte. Na Criminalística, passei a perceber a importância das autenticações das telas usadas como instrumento de lavagem de dinheiro, através de métodos científicos que pudessem subsidiar afirmações conclusivas sobre suas valorações, para fins de persecução penal.

2) Até o advento da Operação Lava Jato as perícias em obras de arte existiam no Brasil? O que representa o avanço do trabalho técnico científico realizado pelo senhor e sua equipe nesta operação?
Sob o ponto de vista Criminalístico, as avaliações anteriormente eram feitas a partir de informações obtidas de supostos especialistas, sem formação específica em áreas do conhecimento que permitissem aplicar o método científico a autenticações. Hoje, pretende-se que antes de qualquer valor atribuído a uma determinada obra de arte seja feita a discussão sobre sua autenticidade.

3) Poderia resumir em quais métodos consistem o trabalho de pericia realizado nas Obras apreendidas na Operação? A química é fundamental nesta operação?
Análise químicas e físicas em pigmentos e padrões de confronto, para correlações conclusivas; análises grafotécnicas sobre assinaturas de supostos autores; análises de suportes físicos por métodos óticos e químicos não destrutivos; análise de conteúdo palinológico e micológico são as principais linhas de investigação. A tradição do emprego de metodologias de análises químicas em pigmentos coloca esse método como o mais relevante, no atual estado da arte.

4) Quais os critérios técnicos utilizados para a realização de uma pericia em Obras de arte? A PF tem procurado balizar este procedimento para que haja um caminho a seguir em futuros casos?
Por se tratar de assunto ainda pouco discutido no meio científico brasileiro e pela escassa formação profissional competente para tais exames, a formação de equipes multidisciplinares, tanto oriundas da academia como do ambiente criminalístico, tem permitido a apresentação de projetos de pesquisa científica a instituições de financiamento.
Atualmente, a criação de laboratórios especializados em autenticação e valoração estão sendo gestadas em algumas unidades periciais pelo país.

5) O senhor poderia nos informar se todos os quadros apreendidos na Operação Lava Jato já estão periciados? Há uma estimativa de quanto a operação Lava Jato recuperará com estas apreensões?
Ainda não foram periciados muitos quadros, de forma completa como pretendemos. Há muitas dificuldades logísticas sendo superadas, uma vez que há dezenas de autores, inúmeras peças e quadro escasso de pessoal envolvido. Estimativas em torno de R$1,5 milhões em obras avaliadas podem se dizer conservadoras, por enquanto.

6) Quanto tempo se leva para a realização de uma perícia? Quais os profissionais envolvidos?
Temos químicos, físicos, engenheiros e contadores/economistas envolvidos. Com dedicação plena, o que não tem ocorrido, uma obra poderia ser autenticada e valorada em tempo médio estimado de 30 dias. Há muitas complexidades interferentes nessa informação.

7) O departamento Técnico-Cientifíco da PF tem buscado parcerias fora do Brasil para troca de experiências com outras Instituições?
Sim. Há expertise sendo buscada através de parcerias insipientes com instituições internacionais francesas, da Bélgica e Portugal, principalmente.

8) O mercado de arte no Brasil está organizado e preparado para coibir a lavagem de dinheiro e detectar fraudes?
De forma alguma!

9) É possível que uma perícia, seja feita em pouco tempo e sem ajuda de recursos tecnológicos? No caso do Brasil, há Instituições, além da PF, preparadas para este tipo de perícia?
Com qualidade e segurança, ainda não. Almeja-se aumento de velocidade de resposta. Não há tal tipo de pesquisa científica robusta no Brasil.

10) A PF conta hoje com um laboratório de ponta para realizar perícias e detecção de fraudes em Obras de Arte? Pode nos contar um pouco sobre este laboratório?
Em alguns meses, se conseguirmos sucesso em nosso projetos, poderemos dar respostas a isso. Hoje, não há laboratório especializado montado adequadamente.

11) Em todo este tempo que estivestes em contato com Obras de Arte, pintores e histórias, há algo que tenha lhe chamado atenção? Tens algum artista favorito?
Há um pintor Brasileiro, Guignard, que nos chamou a atenção pela grande variedade de possíveis simulações e falsificações e o inundamento de obras supostamente de sua autoria no mercado, que hoje colocamos como bem duvidosas.

Peter J. Mancini – Reuters/United Press

A misteriosa coleção de obras de arte de Luiz Antônio Paolicchi – II Parte

Empty painting frame“Wag the dog” (literalmente “o rabo balança o cachorro”) É o título de um excelente filme lançado, em 1998, no Brasil, com o título “Mera Coincidência”. E “Mera Coincidência”, no caso deste artigo, é quase uma fina ironia do que acontece, ou anda acontecendo, na Justiça brasileira em muitos casos. Há algum tempo investigamos o paradeiro da coleção de Luiz Antônio Paolicchi. O dono desta coleção, atuou na Secretaria da Fazenda de Maringá nos anos 90, e foi responsável, pelo desvio de mais de quinhentos milhões de reais. Somente o doleiro Alberto Youssef, aquele mesmo da Lava Jato e do caso Banestado, teria lavado cerca de cento e cinquenta milhões através de 32 contas (CC5) no Banestado. Paolicchi foi condenado em 2002, pela Justiça Federal. No final de outubro de 2011, Paolicchi foi encontrado morto dentro do porta-malas do carro, amarrado e com dois tiros. Desta coleção, nunca mais se ouviu falar.

Paolicchi começou a se complicar quando uma denúncia anônima chegou à Justiça. Soou estranho o fato da sua renda, na época, não superar R$ 4 mil e ele possuir imóveis que valiam mais de um milhão de reais. Obviamente que os bens nem de longe figuravam na Receita Federal. Muito menos as obras de arte adquiridas com dinheiro desviado. O Ministério Público abriu diversas ações contra Paolicchi e o prefeito da época, Jairo Gianoto. Entretanto, a coleção de Paolicchi nunca foi recuperada. Apesar de contar com objetos de grande valor. Somente em 1998, Paolicchi teria adquirido em uma galeria de Buenos Aires, um desenho, do pintor Pablo Picasso, por US$ 250.000,00. Há quadros de pintores como Di Cavalcanti, Portinari, que nunca foram recuperados pela Justiça. Ainda que a Convenção da Unesco, de 1970, tenha fundamentado que a arte é paras as gerações futuras e não para um grupo fechado. Vale ressaltar que o ex-juiz Sérgio Moro amparou-se nesta Convenção para decidir o destino das Obras de arte apreendidas na operação Lava Jato.

No final de 2018, comerciantes do ramo, foram sondados por um “laranja”. Este “laranja” oferecia para venda algumas obras de arte. Entre elas, dois quadros vendidos à Luiz Antônio Paolicchi e que foram reconhecidos no momento da oferta. O leiloeiro, na época, havia vendido cerca de 5 quadros para Paolicchi. Entre eles, o Portinari que o “laranja” estava oferecendo. Foi aí que fomos informados e retomamos esta investigação. Para entender esta história é preciso voltar no tempo. Antes de ser condenado, em 2002, é bem provável que Paolicchi tenha ocultado esta coleção. No Brasil, a lavagem de dinheiro, através de obras de arte, nem de longe era tema de reportagens ou objeto de preocupação da mídia televisiva. Paolicchi, neste aspecto, foi o pioneiro. Estranhamente, em 2006, um médico de Curitiba/PR, dono de um grande hospital nesta Capital, procurou um intermediário para vender alguns objetos de “família”. Relógios, diamantes e quadros faziam parte daquilo que ele chamava “espólio de família”. O problema estourou quando o intermediário descobriu o nome “Luiz Antônio Paolicchi” e “Alberto Youssef” em alguns recibos. Questionado, o médico alegou desconhecer os personagens. Foi o estopim para que a relação comercial azedasse. O intermediário inteirou-se da trajetória de Paolicchi e ficou apreensivo pelo fato de ter vendido obras que poderiam ser do ex-secretário.

recibãoO fato é que o médico, sentindo-se ameaçado entrou com uma Ação contra o intermediário em 2006. E é justamente nesta Ação, que corre na 11ª Vara Cível de Curitiba/PR, que nossa investigação encontrou parte da coleção. Assim que soubemos desta informação, contatamos a 11ª Vara Cível de Curitiba. Encontramos nas páginas do processo, recibos e fotos de algumas obras que pertenceram ao ex-secretário. Isto mesmo! Recibos e fotos! Pedimos autorização para que as obras fossem fotografadas, mas para nosso espanto, as obras nunca foram apresentadas. Fomos informados que a 11ª Vara Cível de Curitiba/PR, nunca esteve ou determinou que algum fiel depositário estivesse com estas obras. Ao buscar mais informações, descobrimos que o processo corre há mais de dez anos. Durante este tempo as obras nunca foram apresentadas ou sequer tiveram suas origens questionadas. Sequer fora questionado a relação de Paolicchi com o proprietário das obras. Descobrimos também que algumas destas obras, informadas no processo , foram vendidas em 2018. Procuramos o médico, Lidio Jair Ribas Centa, e não obtivemos resposta aos contatos. Apesar de encontrar algumas obras da coleção de Paolicchi, registradas neste processo, não sabemos se elas de fato existem ou aonde se encontram. Afinal de contas, elas nunca foram apresentadas! Diante deste absurdo, pensei na expressão “Wag the Dog”, aqui no Brasil, literalmente, “o rabo balança o cachorro”.

PS – Até concluir esta matéria os quadros não haviam aparecido na 11ª Vara Cível de Curitiba/PR. O recibo que utilizamos para ilustrar a matéria se encontra, encartado, nos Autos. Procurados os envolvidos, não quiseram se pronunciar.

Matéria retirada do Blog da Politica Terra Brasilis – 08/08/2019
P. J. Mancini
Reuters/United Press

João Gilberto e a morte de um Brasil surreal / João Gilberto and the death of a Surreal Brazil

joaogilberto A morte de João Gilberto é de um surrealismo atroz. Em vida, João Gilberto traduziu musicalmente aquilo que de mais puro e lindo o Brasil possui. Morto, deixa uma tristeza e uma saudade de tudo aquilo que o Brasil poderia ter sido ou foi ou acabou não sendo. Talvez o simbolismo de toda esta tragédia, e de que talvez tenhamos sido derrotados na construção social deste País, se expresse num simples fato:

Em 2013 o banco Opportunity comprou 60% dos direitos sobre os quatro primeiros álbuns de João. Ou seja, 60% da alma musical de um gênio e de um País! Algo que certamente, nem nos piores pesadelos, João Gilberto poderia imaginar na solidão do seu apartamento.

Para mim toda a beleza da música deste gênio está registrada no encontro da sua voz com a leveza de Stan getz, o piano discreto de Tom Jobim e a voz de Astrud, no disco Getz/Gilberto de 1964. É um resumo do Brasil, das nossas cores, nossos sons e alegrias e melancolia. Nos idos de 64 o Brasil enfrentava uma turbulência politica intensa. O mundo ocidental dizia não as convenções sociais.  Incertezas a parte, João seguia na janela observando o mar e devolvendo ao mundo esperança nos acordes calmos do seu violão. Sua música nunca desistiu da beleza. Mas infelizmente, este “Rio de Janeiro” tão cantado pela Bossa, hoje, existe apenas na consciência musical do “gringo” e do japonês que reverencia toda esta poesia “Gilbertiana”. A realidade é dura! A beleza destes tempos foi atropelada por bundas e ritmos que nem de longe refletem o que foi a música popular brasileira. Dias que relegam gente como João Gilberto, Tom Jobim e João Donato ao  gueto dos esquecidos. Tempos em que a saudade já não é só do grande amor perdido. Mas de um País que ficou na memória e nas fotos em preto e branco. Um País que nos últimos anos decaiu socialmente, economicamente e que se vê diante de um imenso mar de lama provocado pela corrupção. O que houve com o País do futuro? Haverá futuro para a musica brasileira? Pergunta difícil e cuja resposta parece resumida na morte de João Gilberto. Pior do que a morte talvez seja a indiferença! “A paz é algo de realmente belo. Compreender e ser compreendido é uma espécie de paz. Sinto a verdadeira paz ao comunicar-me com outra pessoa. É amizade comunicada pela música” Disse João Gilberto, em 1964, sobre a gravação de Getz/Gilberto. Logo ele que sempre recebeu a pecha de antissocial!

Marcel Pinie

Foto do artigo: Reprodução/ Facebook Sofia Gilberto

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João Gilberto and the death of a Surreal Brazil

gilberto2The life death of João Gilberto is an atrocious surrealism. In life, João Gilberto translated musically what is most pure and beautiful Brazil possesses. Dead, it leaves a sadness and a longing for all that Brazil could have been or was or did not end up being. Perhaps the symbolism of all this tragedy, whether it has been done or defeated in the social construction of this country, is expressed in a simple fact:

In 2013 the bank Opportunity bought 60% of the rights on the most important albums of John. That is, 60% of the musical soul of our country! Something that certainly, not even in the worst nightmares, Joao Gilberto can imagine in the solitude of his apartment.

For me all the beauty of the music of this genius is recorded in the meeting of his voice with a lightness of Stan, the discreet piano of Tom Jobim and the voice of Astrud, no record Getz / Gilberto of 1964. It is a summary of Brazil, our colors, music and joys and melancholy. In the 1960s, Brazil faced intense political turbulence. The Western world said not as social conventions. Uncertainties aside, John at the window watching the sea and giving back to the world hope in the quiet chords of his guitar. His music never gave up on beauty. But unfortunately, Brazil “Rio de Janeiro” so sung by Bossa Nova today is present in the musical consciousness of the “gringo” and the Japanese who revere all the “Gilbertian” poetry. The reality is hard! The beauty of the times was trampled by asses and rhythms that did not even stand out as a popular Brazilian music. Days that relegate people like Joao Gilberto, Tom Jobim and Ary Barroso to the ghetto of the forgotten. Have a longing is no longer a great lost love. But of a Country that was in the nostalgia and in the photos in black and white. A Country that has fallen socially, economically and that is facing a huge sea of ​​mud What has arisen with the Country of the future? Is there a future for Brazilian music? Worse than death is perhaps an indifference! “A peace is something really beautiful. It is a communication with music,” said João Gilberto, in 1964, about a recording of Getz / Gilberto. Soon he always received a label of antissocial behavior!