Luciana Whitaker – 11 anos no Alasca – Entrevista com a autora

Luciana Whitaker, sem saber onde passar as férias, em abril de 1996, seguiu a dica de um amigo e viajou para o Alasca. O que era para ser um passeio de oito dias transformou-se numa estadia de 11 anos. Durante este período, Luciana, aprofundou-se na cultura Iñupiaq . Capturou tudo em fotos e nos e-mails que enviava aos amigos e parentes.  Estas impressões e descobertas estão registradas no livro “11 anos no Alasca”, lançado pela editora Ediouro em 2008. Diário de uma viagem insólita e um registro emocionante do mundo dos esquimós. Acompanhe a entrevista, da fotógrafa, ao nosso Blog:

Perguntas:
 

1 – poderia nos contar um pouco sobre os Iñupiat?

Os Iñupiat tiveram de sobreviver nas condições climáticas mais difíceis do planeta e para isso precisaram da colaboração de todos. Assim, desenvolveram uma espécie de 10 mandamentos, que na verdade são 12 valores respeitados e praticados por todos, desde a infância. Esses valores são: evitar conflitos, ter humildade, espiritualidade, cooperação, compaixão, tradições de caça, conhecimento da linguagem, compartilhar, laços de família, humor, respeito pelos mais velhos e pelo outro e respeito pela natureza.

 2 – Você diz no seu livro “11 anos no Alasca” que adora ler livros sobre o Ártico. Indica algum para os para os leitores?

Esses livros são todos em inglês. Meu preferido é o sobre a vida de um dos meus cunhados, um cara muito envolvido em política, uma das pessoas que lutou pelos direitos da terra para os povos nativos do Alasca, nos anos 60 e 70. Chama-se “Etok, a Story of Eskimo Power”. Esse livro me fez entender muito sobre a cultura e a desculturalização imposta aos nativos nessa época. Tem também um livro narrado por um capitão de uma equipe de caça, “The Whales, They Give Themselves, conversations with Harry Brower, Sr”, editado por Karen Brewster; o clássico “Fifty Years Below Zero” de Charles Brower e um outro escrito por, Diamond Jenness, um antropólogo que participou da expedição no navio Karluk ao ártico em 1913, chamado “Dawn in Arctic Alaska”.

3 – Qual a importância do idioma e da tradição oral para o povo iñupiaq?
 Um povo que fala sua própria língua, fortalece sua cultura e identidade. Os mais velhos dizem que é preciso falar a língua para entender melhor a cultura. Muitos Iñupiat falam inglês no dia-a-dia, mas quando acampam no gelo ou caçam, falam em Iñupiaq. As tradições orais e as estórias de um povo são contadas de geração em geração, mantendo a cultura viva. Quando um povo conhece suas estórias, esse povo é mais feliz, pois tem orgulho de ser o que é.

 4 – O que você lia na biblioteca de Barrow?

A biblioteca de Barrow é surpreendentemente maravilhosa. Lá tem de tudo. Palmas para o seu diretor, David Ongley! Romances, periódicos científicos, livros sobre o ártico, CDs de música clássica ou nativa, DVDs de todas as espécies. Já peguei até o filme brasileiro “Eu, Tu, Eles” com a Regina Casé! Mas especialmente eu gosto dos artigos científicos sobre o ártico, que me ajudam muito no meu interesse em acompanhar o aquecimento global por aquela região. Fora isso, sempre levei meus filhos para a biblioteca de Barrow, que tem uma sala incrível para crianças, com muitos livros e filmes, almofadas para os pequenos leitores se deitarem e se deliciarem no chão, mesinhas e cadeiras de tamanho infantil com lápis de cor e papel… meus filhos são ávidos leitores até hoje. Foi um hábito cultivado desde cedo, incentivado por essa atraente biblioteca.

 5 – Você trabalhou oito anos na Folha de São Paulo, seis deles no comando da fotografia, o que caracteriza um bom fotografo?

Hoje em dia, as câmeras e os softwares de fotografia são tão bons, que já não se precisa de muita técnica para fazer uma boa foto. O que se precisa é ter cultura e criatividade visual, boa noção de composição, saber ver a luz e jogar com os diferentes planos. É ter personalidade, rapidez, sentimentos à flor-da-pele, jogo de cintura e saber o que quer dizer com sua fotografia.

 
6 –  Um lugar inesquecivel:    Acampamento de caçar baleias na primavera em cima do gelo do oceano congelado em Barrow.              

 Uma roubada:               Uma vez lí uma matéria para uma revista de viagem que falava que Barrow era a maior roubada. Chamava-se “If you can make it there, you can make it anywhere”  ou seja: se você sobreviver alí, você sobrevive em qualquer roubada.

 Gostaria de ir:         Fui a Istanbul, mas quero conhecer o resto da Turquia; adoraria ir à China, especialmente Guilin.
 
7 – O Alasca esta a salvo do progresso?  

O aquecimento global está acabando com o gelo do oceano ártico! A cultura esquimó se baseia inteiramente na caça de subsistência às baleias (não se assustem, essa caca é apoiada até pelo Greenpeace, pois é cultural, a carne não é vendida, apenas distribuida e o numero de baleias cabeça-de-arco, as que caçam, está aumentando) e os baleeiros acreditam que seus filhos ou netos não vão conhecer essa parte da cultura. É exatamente lá que o aquecimento global se faz mais percebido no mundo. Por outro lado, os esquimós estão usando a tecnologia para repassar tradições. Editam livros com costumes tradicionais, dão aula da língua e cultura para pequenas vilas por teleconferência e têm até uma faculdade Iñupiaq!

 8 – Qual equipamento voce utilizou para fotografar as paisagens do Alasca?

Sempre Nikon. No começo, Nikon F4, de filme, mas já faz tempo que me digitalizei e hoje em dia uso a Nikon D700. O que se tem de tomar mais cuidado é com a mudança de ambientes, do quente para o frio, pois lente e câmera embaçam. O ideal é ter dois equipamentos. Um mantido dentro da bolsa e só usar em interiores aquecidos e o outro deixar exposto ao frio. Cuidado também com as baterias: mantê-las quentes, junto ao corpo, pois descarregam facilmente no frio.

 9 – Alguma dica para quem quiser visitar o Alasca?

Um passeio muito bonito é alugar um motor-home e fazer um passeio durante as férias de julho. Visitar o parque Denali, o Russian River (pesca de truta e salmão e grandes chances de ver ursos marrons), acordar cedo (para ver animais), fazer trilhas, inclusive de bicicleta, ir andar sobre o glaciar Matanuska, fazer rafting e passar muito tempo ao ar livre.

 10 – Pode nos contar em qual projeto esta trabalhando agora?

Sempre estou atenta ao aquecimento global em Barrow, continuo indo lá todos os anos, algumas vezes ao ano, e tenho feito muito material novo. Estou também começando a fotografar/pesquisar sobre cidades e projetos sustentáveis.

 

 Conheça o trabalho de Luciana Whitaker no site: http://lucianawhitaker.com/

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