Entrevista com Graham Greene

Graham Greene

 

Extraído de: CHAPSAL, Madeleine. Os escritores e a literatura; Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1967. 

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– Que pensa do seu último romance?

 

O Nosso Agente em Havana? Bem entendido, considero-o como uma brincadeira

  um livro excelente.

 Espero que, pelo menos, vos tenha feito rir!

 Quando o escreveu?

 No ano passado. Comecei-o em novembro de 1957,  quando estava em Havana.

 – Escreve depressa?

 Não, muito lentamente. Quando estou com um livro, procuro escrever quinhentas palavras por dia, mas muitas vezes nem lá chego.

 – Onde trabalha?  Em Londres?

 Não, em Londres não.  Demasiadas chamadas te­lefônicas, demasiadas pessoas!… Geralmente no campo. Ou então vou até Brighton, sobre o mar, e trabalho num quarto do hotel, onde ninguém me procura, e  se me aborrecer muito, Londres não fica longe…

 Devem-lhe ter perguntado muitas vezes: porque dá aos seus livros, mesmo os mais sérios, a forma de thriller?  De um romance policial?

 Gosto dos romances policiais, tenho sempre prazer em lê-los.  Quando eu próprio estava no colégio, uma das minhas primeiras admirações foi para John Buchan.  E depois, nos nossos dias, a vida parece-se um pouco com um romance policial, não acha? Sobretudo depois da guerra.

 – Quando se prepara para escrever um livro tem já toda a intriga na cabeça?

 Vejo o começo e o fim, mas no meio ainda há muita sombra. Felizmente que assim é, caso contrário o livro estaria já como que escrito. É por isso que não posso escrever novelas: é-se obrigado a saber de antemão o que se vai dizer e não há mais descobertas a operar. Gosto que um livro brote.

 Escreve ainda livros que não sejam somente thrillers, como O Nó do problema, O poder e a glória?

 Estou já um pouco fatigado de ser considerado como um romancista católico e perseguido por essa razão… É’ por isso que nos meus dois últimos livros não há catolicismo nenhum. Tenho também uma peça, nesta altura em cena, em Londres, e que não passa de uma comédia. Para despistar as pessoas. É difícil: quando eles decidiram que se é um romancista católico, logo aparece um grupo de pessoas bem intencionadas à nossa volta a fazer pressão…

  – Qual é o tema da sua peça?

 Chama-se The complaisant lover, e isso diz tudo.

 – Acha?

 É impossível explicar uma intriga… Toda a intriga tem um ar banal, mas foi muito divertido escrever a peça. Escrevi até hoje três peças e acho que esta é a melhor.  Anouilh está a traduzi-la para o francês.

 – Que pensa dos filmes que foram extraídos dos seus livros ?

 Detesto-os a todos. Salvo aqueles para que eu próprio escrevi o argumento: O Terceiro homem e  O ídolo caído.  Viu Um americano tranquilo? Era espantoso.  O americano estava completamente certo e o inglês completamente errado. O americano é a encarnação da sabedoria e do heroismo. Terrível! Acabo justamente de terminar o argumento de O Nosso agente em Havana; estão a rodar o filme, com Alec Guiness.  Acabo de regressar de Havana.

 – Para quem escreve ?

 Penso que para mim próprio.

 Os seus leitores não lhe interessam mais do que isso?

 Não. Penso que, ao escrever, cada qual tem no espírito um leitor imaginário, que é o leitor ideal.

 Como é o seu?  Homem ou mulher?

 Provàvelmente é hermafrodita.  De fato, quando se escreve uma peça ou um filme temos necessidade de pensar no publico, porque se trata de um ato público.  Mas um livro é um ato privado e não é necessário imaginar leitores para ele.

 – O imenso êxito que obtiveram os seus livros não o influenciou?

 Espero bem que não! Sobretudo, sobretudo preservemo-nos disso! Temos de trabalhar no duro, fazer o que se pode, superar-nos. É tudo. Depois, sempre me interessou a maneira de contar uma história. A técnica, Talvez me interesse demasiado.

 – Estudou-a com outros escritores ?

 Quando era jovem, sim.

 Quais os contadores de histórias que mais admira?

 Henry James, Josef Conrad. E um escritor que não é muito conhecido, Ford Madox Ford. Num dado momento, ele foi mais célebre em França do que em Inglaterra, porque viveu em França. Era um bom escritor. Morreu por volta de 1940. O seu melhor livro é The good soldier. Não sei se chegou a ser traduzido.

 – E entre os escritores franceses contemporâneos, quem mais aprecia?

 Lamento, mas não os leio em francês. Gosto muito de Malraux, sobretudo de Les noyers de I’Altenburg, e A queda, de Camus. Lembrou-me um pouco Rilke.

 – E Sartre?

 Gosto de algumas das suas peças. Huis clos é magnífica. Parece-me que os seus romances têm demasiada influência de John Dos Passos.

 John Dos Passos foi, com efeito, uma das descobertas do nosso pós-guerra.

 Para mim, recua um pouco. Pertence aos anos 20; bocados de jornais recortados, grandes títulos, é muito aborrecido.

 Está a par da nova literatura inglesa?

 Um pouco. Admiro um ou dois jovens autores, mas, no conjunto, não leio muitos romances. E sobretudo devo confessar que os dois únicos autores contemporâneos de que posso abrir o último livro com a absoluta certeza de que me vai dar prazer são da geração precedente, como eu próprio: Evelyn Waugh e Sir Henry Green.  Com eles, sinto-me absolutamente seguro de passar uma hora agradável.

 – Os jovens autores nunca lhe dão uma imagem do mundo moderno, do seu, que lhe diga qualquer coisa?

 Não sinto nada disso. Uma mulher talvez: Muriel Sparke. Mas, bem feitas as contas, não leio muito.

 – Fala pouco de si nos seus livros. Propositadamente?

 Mas sim, eu falo de mim! Nos meus livros de viagens, Acontece, apenas, que não gosto das confissões, nem dos confessionários.

 – Você dá a impressão de não gostar muito da época rnoderna, dos seus costumes, das suas máquinas, parece considerar que tudo isso põe em perigo a vida interior.

 Não creio que seja completamente verdade… Evidentemente, se se escreve qualquer coisa de… digamos, de feio, pode-se descrevê-lo com afeição e, contudo, o leitor não verá lá mais do que a fealdade…

 De que é que não gosta na civilização de hoje?

 América. E por América quero dizer muitas coisas que nada têm a ver com a própria América; a televisão, as prestações, os legumes embrulhados em celofane, a comida congelada, tantas coisas… Nem tudo isto é América, mas eu utilizo o termo «América» para as designar.

 – Porque não gosta da televisão?

 Descobrimos isso a propósito dos nossos amigos :uma vez que as pessoas aparecem na televisão tornam-se «vedetas».

 – E você?

 Nunca aceitei ir à televisão. Não quero. Não é pelo fato de ser escritor, mas de ser reconhecido.  E todas essas pessoas que se viram na televisão começam a ser identificados na rua… Um escritor devia ter uma espécie de capa protetora que impedisse que o reconhecessem.

 -Você viajou muito. Para quê?

  Sou nevrótico!  Digo isto porque calculei que, no ano passado, percorri de avião cerca de 44 000 quilometros e é demasiado: isto é nevrose…

 Não gosta dos frigoríficos, mas gosta dos aviões?

 Gosto dos aviões de longo curso. Gosto de ouvir uma voz pelo altofalante que anuncia: Damas, Khartoum, Hong-Kong… Mas os aviões de pequeno curso não me agradam, prefiro o comboio.

 – Nos seus romances toma frequentemente por heróis a mesma espécie de pessoas: resíduos sociais, fora da lei. São também essas que prefere na vida?

 Não posso responder afirmativamente porque todos os meus amigos se sentiriam insultados!.., É antes como conhecimentos que eu aprecio os indivíduos sem categoria: aqueles que se encontram num bar ou num comboio e a quem se fala durante meia hora. Há pessoas dessas que gostam de contar a sua vida. Que quantidade de histórias se obtêm de um vizinho de avião: é extraordinário!…

 – Encontros do gênero serviram-lhe por vezes como ponto de partida?

 Não, o ponto de partida vem sempre por si. Por exemplo, para O fim da aventura via um homem numa varanda situada numa zona particular, em Freetown. Havia duas maneiras de o fazer abandonar a varanda, e foi-me preciso um ano para me decidir a escolher uma ou outra: qualquer delas podia ser o ponto de partida de uma história completamente diferente saída da imagem desse mesmo homem sobre a varanda. Tive de matar uma das histórias, a fim de permitir que a outra avançasse.  Não sabia qual delas sacrificar, Uma era um romance policial e a outra a história que escrevi.  Algumas vezes não vejo mais do que a primeira cena e a cena final, sem saber como preencher o resto. Assim, para a próxima história, que, espero, vai andar, o começo situa-se no Congo Belga: vejo um homem a caminhar para a câmara: é um médico. Já escrevi as últimas palavras que ele deve pronunciar no romance. Mas o meio ainda falta. É difícil, não estou certo de que isso se realize algum dia. É, preciso esperar. Pois bem, esta idéia ocorreu-me antes mesmo de ter visto uma leprosaria, e tive, portanto, de ir ver uma ao Congo Belga: estive lá há pouco tempo. Passei seis semanas nessa leprosaria para que a minha personagem tenha um cenário. Mas foi a personagem que sonhei primeiro.

 Que é que o atraía nos leprosos?

 Existe na lepra aquilo a que chamam o «caso arrumado»: o homem perdeu talvez os dedos, ou o nariz, ou as orelhas, está pronto, mas a doença também. Ela queimou-se. Interessava-me poder obter a partir daí uma comparação com um homem que está psicologicamente «arrumado», que se encontra no auge da sua carreira, por exemplo, ou da sua fé, que venceu, mas que está pronto… Não quero, porém, pensar nisso. Neste momento, ocupo-me da peça e pus o romance numa gaveta, de onde o voltarei a tirar talvez no próximo Verão. Não sei.

 Escreveu os livros que desejava escrever?

Certamente que não. Quando era jovem desejava escrever romances históricos, à maneira de uma romancista inglesa que se chama Marjorie Bowen e de que gostava muito. Não desejava com certeza escrever os livros que escrevo. Não gostaria também de os ler se eu fosse leitor. Acho-os demasiado lúgubres.

  Não acha que o público gosta das histórias lúgubres?

 Não sei… Eu não.

 Dizia que não gostava de ser classificado como escritor católico. Considera que os católicos sejam uma espécie à parte?

 Na medida em que têm uma fé: se fizerem alguma coisa contrária à sua fé isso produz sobre eles um certo efeito, engendra um conflito, nem que seja um gérmen de conflito… É interessante para um romancista.  Mas as coisas produzem-se da mesma maneira com toda a espécie de pessoas que têm uma fé, por exemplo, um comunista. Há comunistas nos meus romances.

 – Disse-se muito, a propósito dos seus livros, que se tratava de conflitos entre o bem e o mal, que os seus romances eram uma ilustração do poder do mal.

 Não compreendo o que isso quer dizer!  Alguém inventou um dia essa frase a propósito do mal e depois estão sempre a repeti-la? Se nos colarem uma etiqueta à volta do pescoço, há uma dificuldade enorme para nos desembaraçarmos dela depois!… Era um motivo suplementar para que eu escrevesse uma peça cômica; tentar arrancar a minha etiqueta.

 -Acha que o conseguirá?

 Será talvez longo… Apercebi-me disso nas primeiras representações das minhas peças, As pessoas que vão para assistir a um certo espetáculo evitam rir, receiam que isso fique mal. Presumem que uma peça deve ser solene e estão decididas a não se divertir. É preciso lutar, lutar contra o público para o obrigar a rir, apesar de tudo; tudo isto porque nos puseram à volta do pescoço uma etiqueta que diz «autor sério»!… Mas, uma vez que intitulei a minha última peça de «comédia», talvez tenha a sorte de ver o público assistir a ela com uma disposição mais alegre.

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