Design Brasileiro

Sergio Rodrigues um dos maiores designers do mundo reflete sobre a maneira de fazer e pensar o design. Pretendemos apresentar alguns posts sobre o design brasileiro. Esperamos com isso contribuir para a informação e melhor avaliação de colecionadores, arquitetos, decoradores e afins.

“Ninguém cria sozinho. Nenhum móvel que fiz poderia ser executado por mim”

Um dos maiores designers brasileiros, autor da premiada poltrona Mole, Sergio Rodrigues tem duas paixões: o desenho, herdada de seu pai, Roberto Rodrigues, e a madeira, da qual aprendeu a gostar com um tio-avô. Ele passou a vida desenhando móveis com formas torneadas e volumes generosos, que refletem brasilidade. Para falar sobre a criação de suas peças, sobre suas fábricas de mobiliário – como a Oca e a Meia Pataca – e suas casas de madeira, entre outros assuntos, Sergio Rodrigues recebeu PROJETO DESIGN em seu ateliê, no bairro do Botafogo, Rio de Janeiro.
 
TRAJETÓRIA PROFISSIONAL
 
Por que o senhor escolheu a profissão de designer?

Minha família sempre foi ligada às artes plásticas. Meu pai, que morreu quando eu tinha dois anos, era, segundo Pietro Maria Bardi, o elo que faltava entre o art déco e o modernismo. Dele recebi como herança a paixão pelo desenho.

Da parte de minha mãe, tive uma ligação muito importante com meu tio-avô James, que foi quem me encaminhou para o design. Ele tinha uma oficina onde dois portugueses de altíssimo nível técnico realizavam os objetos que ele imaginava: bancos, cadeiras, mesas. Desde garoto eu acompanhava aquele trabalho e ficava impressionado com o artesão que conseguia ler o desenho e fazer a peça em três dimensões. Ali iniciei minha ligação com a madeira.

A opção pela arquitetura foi um caminho natural, então.

Não. Minha idéia era ser projetista de aviação, mas para isso teria que entrar na escola de cadetes, e como era péssimo em matemática não consegui. Algumas pessoas sugeriram que eu estaria livre dessa matéria se cursasse arquitetura.

Entrei na faculdade, mas como aquela história da matemática era brincadeira, não passei no primeiro ano. Só no terceiro ano do curso vim a saber que arquitetura não era apenas desenho ou decoração, mas algo mais substancial: a criação do espaço que possa abrigar o homem.

E o mobiliário?

Observei que a arquitetura do Brasil, naquela época, era considerada uma das mais interessantes do mundo, mas a ambientação não tinha relação com ela. Havia bons profissionais nessa área, mas com muita influência européia. Para ter um toque de brasilidade, eram utilizadas peças de mobiliário colonial. Mergulhei no tema, mas não existia bibliografia adequada. Estudei por minha conta, fiz pesquisa em museus históricos.

No terceiro ano da faculdade, o professor de composição decorativa, David Azambuja, ficou entusiasmado com o que eu apresentei e me convidou para ser monitor. Quando eu estava no último ano, ele foi convidado pelo governador do Paraná, Bento Munhoz da Rocha Netto, para fazer o Centro Cívico de Curitiba. Eram quatro projetos e Azambuja contratou mais três arquitetos, para cada um fazer uma parte. Levei um susto  gratificante quando ele me convidou para ser um dos arquitetos [os outros dois foram Olavo Redig de Campos e Flávio Reis do Nascimento].

Por qual dos edifícios o senhor ficou responsável?

O das secretarias de Estado. Mas depois de dois anos o governador disse que ia suspender as obras por problemas financeiros. Fiquei em Curitiba e pouco depois o arquiteto italiano Carlo Hauner chegou à cidade com a intenção de fazer a ambientação do Palácio do Governo. Ele desenhava móveis para a Ambiente, loja de mobiliário moderno que eu já conhecia, e era proprietário de outra em- presa, a Artesanal.

Fizemos uma sociedade, instalando a loja Móveis Artesanal Paranaense, que durou seis meses. Vendi apenas dois sofás, e ainda pelo preço errado. Hauner, que estava fundando a Forma em São Paulo, com outros dois sócios, me convidou para trabalhar com ele. Fui o primeiro brasileiro da Forma a fazer ambientação de interiores. Comecei desenhando móveis, uma ou outra peça muito simples.

Por sugestão de Hauner, montei meu negócio no Rio, onde eu conhecia muita gente. Criei uma empresa para vender os móveis de São Paulo e ofereci sociedade ao conde Leoni Grasselli, que era um dos sócios da Forma. Escolhi um local não muito adequado, na rua dos Jangadeiros, mas foi um sucesso incrível. Ali surgiu a Oca, primeira loja de gabarito em Ipanema.

OCA, POLTRONA MOLE E MEIA PATACA
Quantas peças havia no catálogo nesse início?

Poucas, e a maioria vinda da Forma, de São Paulo. Fora algumas que eu desenhei, muito simples, como bancos, banquetas, cadeiras. Nessa época, tive grande decepção quando mandei fazer uma banqueta, numa fábrica conceituada, e poucos dias depois vi duas lojas da rua Barata Ribeiro vendendo as banquetas que eu nem tinha exposto na minha loja.

Assim, resolvi montar minha fábrica, em Bonsucesso. Usávamos o jacarandá, que era a madeira mais bonita, mais perfeita, e, com operários caros, os móveis ficaram caros. Mas quem conhecia o material, o desenho e os acabamentos valorizava. No primeiro ano, compramos a loja que alugávamos.

Qual foi a primeira grande encomenda?

Em meados de 1960, Wladimir Murtinho e Olavo Redig de Campos, funcionários do Itamarati, me procuraram porque precisavam de mesas para ministros, para a inauguração de Brasília. A mesa do ministro Horácio Lafer foi um sucesso.

Depois de vê-la, o embaixador do Brasil na Itália me convidou para fazer a embaixada brasileira em Roma, o Palácio Doria Pamphili, que estava sendo comprado. Como ele queria ocupar rapidamente o palácio, procurei a fábrica de Carlo Hauner, no norte da Itália, onde desenhei e produzi os móveis. Fizemos a embaixada em Roma, o consulado e a embaixada no Vaticano, tudo em tempo recorde.

Ainda na época de Brasília, Darcy Ribeiro me chamou para fazer as cadeiras do auditório da universidade, uma das obras-primas de Alcides da Rocha Miranda. Desenhei as cadeiras, que também foram utilizadas em uns 20 ou 30 auditórios no Brasil, inclusive no Anhembi, em São Paulo.

E a poltrona Mole?

Eu imaginava usar a madeira volumosa, e não como [Joaquim] Tenreiro, que usava madeiras superdelgadas. Eu queria fazer algo para mostrar a madeira. Quando o fotógrafo Otto Stupakoff estava montando seu ateliê me pediu algo para o pessoal ficar bem descontraído. Então pensei em fazer uma coisa baseada naquilo que estava na minha cabeça. E fiz direto, sem protótipo. Essa primeira peça foi um sofá, que está até hoje na casa de minhas filhas, mas do qual só restou a estrutura.

Mais tarde, em 1961, quando eu já estava de volta ao Brasil, o então governador do Rio, Carlos Lacerda, para quem eu tinha vendido duas poltronas Mole, quis que eu a inscrevesse em um concurso em Milão [o 4º Concurso Internacional do Móvel]. Mandei as plantas para análise, e fiquei muito satisfeito quando a poltrona não foi aceita por já ser conhecida.

Então o senhor não participou do concurso?

Fiz pequenas alterações na estrutura e nas travessas da poltrona original. Inscrevi a peça com o nome de poltrona Mole mesmo e ela ganhou o primeiro prêmio entre 400 concorrentes, de trinta e tantos países.

A firma encarregada da produção, a ISA, de Bérgamo, mudou o nome para Sheriff, que considerava mais comercial. Eles a promoveram e venderam para o mundo todo. Deram a poltrona de presente para [o presidente norte-americano John] Kennedy, a rainha Elizabeth 2ª, o papa Pio 12, [o premiê russo Nikita] Kruchev. Vi, em uma publicação inglesa, o marido da princesa Margareth [da Inglaterra], lorde Snowdon, que era fotógrafo e decorador, usando a poltrona Mole em vários ambientes.

Muitas publicações deram destaque à cadeira, que um livro considerou uma das 30 mais importantes do século 20. A partir daí começaram as cópias. Há pouco tempo saiu uma na revista norte-americana Architectural Digest: em vez de pés torneados, fizeram pés quadrados, mas com os mesmos detalhes, o mesmo almofadão. No Chile, vi um hotel com poltronas Mole produzidas por lá mesmo. Quer dizer, muita gente enriqueceu com esse negócio.

O senhor ganhou dinheiro com a Mole?

Recebi apenas 200 dólares, que era o prêmio do concurso e já estava amarrado à venda dos direitos autorais.

Como foi a criação da Meia Pataca?

Foi em 1963. Meus amigos queriam comprar móveis na Oca e não podiam, porque eram muito caros. Resolvi fazer no canto da fábrica uma linha um pouco mais seriada e de execução mais simples. Esses eram os móveis da Meia Pataca.

Quando Darcy Ribeiro me chamou para fazer os móveis da Universidade de Brasília, fiz coisas bastante simples, também com jacarandá. Isso foi produzido na Mobilinea, de São Paulo, que era de Ernesto Hauner, irmão de Carlo.

Como ficaram seus direitos autorais depois que o senhor saiu da Oca?

Nunca pensei em sair da Oca. Quando vieram os problemas de sociedade, foi muito desagradável e eu me desliguei sem levar os desenhos comigo e sem tê-los registrado.

Anos depois, o pessoal que manteve a Oca percebeu certos enganos, e eu passei a fazer alguns desenhos para eles, que compravam o modelo e produziam. Também comecei a desenhar para a Tendo do Brasil, empresa japonesa que fazia móveis em série para escritório e jardim.

Qual sua experiência com mobiliário para hotéis?

Ganhei o concurso para o hotel Mofarrej, em São Paulo. Fiz os desenhos e montei uma fábrica na garagem do próprio hotel. Fazia estofamento, cortinas, tudo enfim. Fiquei durante seis anos, mas creio que fui a primeira pessoa que trabalhou com mobiliário de hotéis e não ganhou dinheiro.

Como é sua relação com os operários que criam seus móveis?

Ninguém cria sozinho. Nenhum móvel que fiz poderia ser executado por mim. Tenho que admitir e agradecer a colaboração desses artesãos.

Fale um pouco sobre sua relação com Joaquim Tenreiro.

Tínhamos uma ligação muito grande. Aliás, me orgulho de ele ter dito que eu era o único designer que ele considerava – com algumas restrições, que ele não tinha papas na língua. Ele questionava os pés grossos dos meus móveis. Conversávamos sobre detalhes, sobre como executar.

Ele foi homem de bancada e o criador do móvel moderno brasileiro. Existe o móvel brasileiro, sim. A globalização pegou de tal maneira que é difícil saber a nacionalidade de um carro ou uma geladeira só pelo desenho. Mas a comida, o mobiliário e o vestuário, coisas que você usa com contato direto, não estão globalizados.

O senhor acompanha o trabalho dos designers brasileiros mais jovens?

Sim. Estive recentemente no Rio Design Center e vi móveis de Pedro Useche, maravilhosos. Para mim, ele é um grande designer. Em São Paulo, tem René Bonzon, Carlos Motta. Temos uns 10 ou 15 designers de primeiríssima. Gosto de Cláudia Moreira Salles, de Jaqueline Terpins.

Gosta do trabalho dos irmãos Campana?

Eles são muito criativos, gosto imensamente do trabalho deles. Eles são designers no sentido da palavra: têm a capacidade de criar canetas, palito, lapiseiras, automóveis, geladeiras etc.

Da mesma forma é Guto Índio da Costa, figura incrível, que faz coisas aceitas no mundo inteiro.

MADEIRA
E seus projetos de casas de madeira?

A casa pré-fabricada era a síntese da minha ligação com a arquitetura, com a madeira e com a indústria. Nos anos 1960, comecei a estudar o assunto e fazer maquetes.

Niomar Muniz Sodré, que era diretora do MAM, ficou entusiasmada com a idéia e me pediu para fazer uma casa. O prazo era de 20 dias e eu a montei, juntamente com o pessoal da Oca.

Depois fiz obras grandes, como o Iate Clube de Brasília, a sede do Country Club de Goiânia, que visitei recentemente, e casas maiores. No total fiz mais de 250 casas, a maioria delas ainda existe.

A produção dessas estruturas era feita pela Oca?

Não, meus sócios não quiseram. Mas eu consegui, em uma área de cem metros quadrados, fazer tudo aquilo. Com seis operários eu conseguia ganhar quatro vezes mais do que a Oca, que tinha cem empregados.

Existe preconceito com a estrutura de madeira?

Os latinos têm o mesmo medo que os romanos tinham da madeira para residência e para arquitetura definitiva. Nos territórios que invadiam, os romanos faziam grandes assentamentos de madeira que depois eram substituídos por pedra e cal.

Zanine Caldas tem alguma relação com essas casas?

Eu o conheci em Brasília, na época em que eu estava fazendo trabalhos para a universidade. Um dia, descobri uma loja que vendia arranjos secos de folhas, de muito bom gosto. Era Zanine quem fazia aquilo.

Ele não tinha diploma, mas a arquitetura que ele fazia tem muito arquiteto com diploma que não faz. Desde aquele momento, nos tornamos grandes amigos. Em 1964 ele foi expulso de Brasília e começou a fazer algumas esculturas entalhadas muito bonitas, que eu vendia na Meia Pataca.

Depis ele veio para o Rio e começou a fazer as casas da Joatinga. Quando vi a primeira, fiquei alucinado; quando ele fez a segunda, chamei Lucio Costa, que já conhecia Zanine do tempo das maquetes, mas não conhecia a arquitetura dele. Lucio ficou alucinado também. E aí Zanine fez uma série de casas no Brasil inteiro.

Existe diferença entre as coberturas de suas casas do início e das mais recentes, não?

As primeiras eram todas praticamente planas. Naquela época não dava para fazer casinholas, como se dizia, de duas águas. Considerei as casas modernas, com teto plano, como uma possibilidade de venda.

Depois começaram a pedir casas com telha com capa-canal e passei a fazê-las. Fiz algumas com Eternit, de que eu gostava pela possibilidade de substituir uma telha por outra transparente, criando clarabóias em diversos lugares da residência. Minhas casas são sempre muito iluminadas.

E qual sua paixão maior: a madeira ou o desenho?

Claro que o desenho. Se não tiver a madeira, parte-se para o plástico, a estrutura metálica. Sem o desenho não se faz nada. Mas eu gosto dos dois juntos. Embora eu tenha feito para o Palácio do Planalto uma cadeira de estrutura metálica e estofado, que será relançada por uma empresa de Curitiba, que está produzindo os meus móveis.  Fiz uma casa toda em fibra de vidro, que não saiu do protótipo. Acho o plástico maravilhoso, mas gosto do estudo do encaixe da madeira, para se conseguir tirar o máximo daquela matéria-prima natural.

Por Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 284 Outubro de 2003

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