A Casa dos Amigos dos Livros – Maison des amis des livres –

  Imagine voltar no tempo, precisamente 1915, numa manhã de inverno, e encontrar Adrienne Monnier e sua ajudante colocando uma banca de livros na calçada. O mais curioso seria observar a emoção das duas, intimidadas, pelos transeuntes que paravam, uns atrás dos outros, para olhar o conteúdo das caixas. A livreira não tinha dinheiro para comprar todas as obras que gostava. Por isso, a Maison Des Amis des Livres nasceu de uma necessidade econômica; quase todo o acervo fora garimpado entre os saldos dos editores franceses. Era possivel encontrar todas as edições da Mercure France e da Nouvelle Revue Française. O  fascinante desta livraria, além do acervo, estava nos frequentadores. Não foi a toa que esta livraria teve um papel considerável na difusão da cultura dos anos loucos, no inicio do século XX.  André Breton foi um dos primeiros a descobrir a qualidade do acervo. Depois vieram Aragon, Soupault, Guillaume Apollinaire, Pierre Reverdy, fundador da revista Nord-Sud, e tantos outros. A livreira organizava reuniões memoraveis. Convidava os amigos, Léon Fargue, Paul Léautaud, Max Jacob, Erik Satie…depois de lida as obras, todos aproveitavam um coquetel. Adrienne não foi apenas livreira. Além de organizar sessões de leituras editou livros. Entre eles, uma Obra Prima, Ulisses de James Joyce. Ela traduziu a obra para o frances. Sua amiga, Sylvia Beach, americana, encarregou-se da tradução para o inglês. Em 1919, seguindo um conselho da amiga Adrienne, Sylvia abriu a livraria Shakespeare & Cie, na rua Dupuytren. Dois anos depois, mudou-se para a rua do Ódeon, nº12, em frente a Maison des Amis des Livres. O endereço tornou-se um ponto de encontro para os escritores americanos que visitavam Paris. Hemingway ganhava créditos e podia emprestar livros. Ezra Pound rondava por lá. E foi ele quem convenceu James Joyce a vir para Paris.  Reza a lenda que em fevereiro de 1929, a versão francesa de Ulisses apareceu na vitrine da Maison des Amis des Livres. Adrienne enviou-a a Paul Claudel, cliente assíduo da livraria, então embaixador da França em Washington. Claudel respondeu assim:

Perdoe-me se lhe devolvo o livro que possui, acho eu, um certo valor comercial e que para mim não tem o menor interesse. Algum tempo atrás, perdi algumas horas lendo o retrato do artista quando jovem, do mesmo autor, e já foi o bastante.”

Paul Claudel foi incapaz de saborear a essência modernista de Ulisses. Detestava Joyce e acabou sendo detestado pelos surrealistas, mas isto é uma outra história…

PS – Naquela época Ulisses era uma verdadeira causa literária.

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