O poeta e a musa desbocada.

elaNão é todo dia que encontramos uma mulher que se excita com poesia. É bem provável, como na grande maioria dos casos, e nos bons ditames da educação burguesa, que admire e goste de ler, sob a meia luz do abajur, os poemas de Fernando Pessoa, Whitman, Yeats e outros mais melosos. Guardando para si  reminiscências de um tempo perdido. Mas não passara disto e algumas lágrimas furtivas. Talvez, até mesmo, as mais ousadas, carreguem na bolsa versos mais fesceninos. Feito aquelas mulheres que procuram na solidão do escritório ou no canto escondido do restaurante a companhia de Safo ou as estrofes sacanas de Brecht. Mas publicamente é raro encontrar uma mulher que se diga molhada a simples menção de uma estrofe de Catulo: “Em vão é que a ti, que me tentas tramar,  primeiro te comerei eu com bela foda de boca”. Naquele dia, logo depois de encerrar o expediente e deixar o escritório, procurei um café. Destes mais requintados aonde se pode ler alguma coisa e esquentar o corpo com um drinque. Nestes lugares procuro exercer a única atividade que não me entedia; observar. Belas pernas, silhuetas, gestos, rostos e pedaços de diálogos que vão formando os mais absurdos enredos. Recordo com perfeição o momento em que a vi. Mergulhada na leitura de sonetos luxuriosos de Aretino. Os óculos lhe davam um ar de intelectual estrangeira. Os cabelos ruivos desciam ao longo do ombro e os seios empinados, através do decote, deixavam antever a pele clara e a textura aveludada das aureolas. Como acontece sempre que avisto uma beleza destas, tudo me agrada nela, da cor esverdeada dos olhos até o formato dos pés. Não sei se vocês me entendem, mas não consegui iniciar uma conversa. Apesar da proximidade apenas olhei-a embevecido por um longo tempo. De repente me ocorreu que ela poderia partir a qualquer momento. Procurei formular uma frase aceitável. Olhei-a interrogativamente. Não sabia se devia iniciar uma brincadeira ou apenas pedir o açúcar. Foi quando vi, novamente, a capa do livro e inspirado no que li lancei a pérola: Gozemos a vida, Lésbia, fazendo amor, desprezando o falatório dos velhos puritanos. A luz do sol pode morrer e renascer mas a nós, quando de vez se nos apaga a breve luz da vida,  resta-nos dormir toda uma noite sem fim. Ela me fitou perplexa. Talvez envergonhada da minha ousadia. Mas o fato é que replicou, acentuando o sotaque portenho nas sílabas mais fortes, com outra pérola do mesmo autor: Tu prometes, minha vida, que este nosso amor há de ser delicioso e perpétuo entre nós. Ó grandes deuses, fazei que a sua promessa seja verdadeira e que, do coração, sinceramente, tenha dito estas palavras. Fechou o livro e aproximou-se da minha mesa. Levantei os olhos, certo de encontrar um sorriso. Parecia aborrecida. Puxou a cadeira e sentou ao meu lado. Estendi a mão e cumprimentei-a. Ao longo da conversa fiquei perturbado demais para ocultar que não estava interessado; ignoro se ela percebeu. O fato é que uma hora depois estávamos sob o mesmo lençol, num destes hotéis de rotação do centro da cidade. Ao pé da sua orelha eu sussurrei  versos de Brecht: Amo virtude com traseiro. E no traseiro virtude pôr. A cada verso, e procurei resgatar da memória todos que eu conhecia, sussurrado na orelha, seu corpo tremia e ela movimentava, vigorosamente, a mão sobre o grelo. Nossa festinha durou a noite inteira. Como prêmio, ganhei um belo fellatio. Na Antiguidade, ela me explicou, era uma prática apreciadíssima. As experts no assunto eram as fenícias e as espanholas de Cádiz. Haviam casas de prostituição especializadas em sexo oral e suas praticantes eram muito boas no que faziam. Estátuas eram erguidas em seus nomes! Outra expert, Teletusa de Cádiz, reza a lenda, era capaz de devolver o vigor até ao homem mais idoso e caído. Quanto a mim, disse com um sorriso cínico, deitando a cabeça sobre o meu peito, aprendi esta arte com uma velha cortesã argentina. No tempo em que eu estudava no Conservatório Nacional, sonhando que poderia ser a próxima Martha Argerich, e divida o quarto, com outras moças do interior, na casa da velha cortesã. Ao se aproximar, ela iniciou a felação pelos testículos, explorando toda a parte interna das coxas. Indo para o pênis depois. Desta maneira, ela usou as mãos enquanto sugava a glande, deixando sua língua fazer todo o trabalho, vagarosamente. Poderia dizer que desde então, nunca mais experimentei tal prazer. Amanhecia quando a deixei na estação. Durante o caminho de volta recordei, em voz alta, versos do chileno Neruda. Ao longo da manhã, descobri ou sonhei que descobri alguma maravilha. Inegável que na noite anterior eu havia conhecido horas de triunfo. Quanto ao nome dela, me faltou atenção e memória para guardar. Por isso a perdi na vida, nada mais.

 Marcel Pinie

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