O Homem à margem do humano – Carlos Droguett e Julio Ludemir –

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O que tem em comum a literatura do escritor chileno Carlos Droguett e do pernambucano Julio Ludemir? O primeiro é um dos grandes autores da literatura latino-americana. Nasceu em Santiago em 1915 e faleceu na Suíça em 1996. O outro, vem lançando livros importantes quando o tema é o submundo carioca. Nascido em 1960, Julio Ludemir tem em comum com Droguett uma paixão : O jornalismo. Droguett trabalhou como jornalista durante muitos anos e era formado em Ciências humanas. Mas o que se torna ponto de convergência destes escritores? Certamente, os personagens que viveram à margem da sociedade e demonstram bem o substrato fundamental do mundo latino americano antes e depois da ditadura militar. Em 1960 Droguett escreveu o clássico “Eloy”, lançado em português pela Codecri em 1981, com tradução de Cecília Zokner. Eloy, Eleodoro Hernández Astudillo,  é uma lenda do submundo chileno com mais de 21 assassinatos e diversos roubos, morto pela polícia em 1941. O autor recria, de forma lírica, os últimos momentos da vida do bandido. Ambos, Droguett e Ludemir, alcançam uma contundente realidade pelo modo narrativo e na maneira humana como expõe os dilemas e sentimentos dos personagens diante do contexto social que os rodeia. No caso do livro  de Julio Ludemir – “O bandido da Chacrete” –  mostra a ascensão e queda de Paulo Cesar Chaves. Lenda no submundo carioca, fundador do comando vermelho, e um homem que descobre, na velhice precoce, que o crime não compensa. Já o personagem de Droguett, Eloy, é retratado em meio a uma caçada policial nas montanhas. Durante sua fuga uma série de evocações revelam suas ânsias mais primitivas e sua necessidade de comunicação com o outro. Ambos os autores brindam o leitor com personagens míticos e bastante humanos. A sensação que o leitor tem ao terminar, ambos os livros, é de que o autor redimiu a si mesmo e o leitor reencontrou seu lugar no mundo.

Marcel Pinie (autor do livro “O mal de Caravaggio”)

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A Festa da insignificância – Milan Kundera –

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A edição limitada, capa dura, do livro de Kundera é como uma guloseima, numa confeitaria centenária, cuja receita é trancada a sete chaves e o segredo vem de gerações. O detalhe chato é que só é produzida de tempos em tempos. Kundera é assim. De tempos em tempos ele nos brinda com uma guloseima literária. A festa da insignificância, 2013, editada no Brasil pela Companhia das letras, é o doce do momento para os leitores deste autor Tcheco, radicado em Paris desde 1975. Demorou, pois desde 2002 ele não publicava uma ficção. Kundera é daqueles escritores que dominam o espaço interno e externo de suas tramas. Vai além de um mera descrição ou caracterização. Para os leitores antigos, A festa da insignificância perturba tanto quanto o romance “A brincadeira”, lançado pelo autor em 1967 na cidade de Praga. Para o autor, no romance “A brincadeira”, a vida não passa de uma brincadeira. Um longo ato de amor pode ser de fato um ato de ódio. Entre a realidade e o que parece ser a realidade interpõe-se toda uma gama de possibilidades.  Passados 47 anos o autor nos brinda com a resposta a todos estes questionamentos através de quatro vozes. Os quatro amigos, que se encontram numa festa esquisita, questionam o mundo atual e a si mesmo com ironia e inteligência. Destes questionamentos resta a fina ironia e a tristeza da insignificância. Que nas palavras do autor, servem de resposta incondicional, aos questionamentos deste mundo pós comunismo e de uma sociedade que coloca no umbigo o centro do erotismo. “A insignificância, meu amigo, é a essência da existência. Ela está conosco em toda parte e sempre. Ela está presente mesmo ali onde ninguém quer vê-la: nos horrores, nas lutas sangrentas, nas piores desgraças. Isso exige muitas vezes coragem para reconhecê-la em condições tão dramáticas e para chamá-la pelo nome. Mas não se trata apenas de reconhecê-la, é preciso amar a insignificância, é preciso aprender a amá-la”.

M.P.

Ricardo Piglia – O caminho de Ida da literatura Argentina

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Ricardo Piglia é um dos autores argentinos mais importantes do momento. Nascido em Adrogué, Província de Buenos Aires, é autor de “Respiração Artificial”, “Dinheiro queimado” e outros. O texto de Piglia é das antigas, com narrativa linear e tramas que mesclam  literatura policial e o aprofundamento psicológico dos personagens. Ele narra e descreve  dand0 fluidez e agilidade à história – dois elementos imprescindíveis em um bom romance policial. Mas engana-se quem pensa que os livros de Piglia sejam de fácil leitura.  Avesso às experimentações, o argentino Piglia é um típico herdeiro da literatura latina e dos autores eruditos. A mistura Borges, Greene e literatura Noir garantem histórias de tirar o folego. Uma delas pode ser conferida no cinema: “Plata Queimada”.  Piglia transita entre os meandros da literatura argentina e nos apresenta um intercâmbio entre as ideias contemporâneas e as ideias intelectuais antigas. Autores desconhecidos do grande público, como Arlt e Enrique Ossorio,  também costumam aparecer em suas histórias. Em “Respiração Artificial”, uma das metáforas mais sombrias dos nossos tempos, em que precisamos de um ar artificial para poder sobreviver, acompanhamos Renzi, espécie de alter-ego do autor, navegar por entre vozes e textos de uma argentina esquecida e sonhada. É o mesmo Renzi que retorna agora no romance  “O caminho de volta” para dar um seminário sobre W. H. Hudson, numa Universidade americana da Costa Leste. Mas isto é uma outra história.

 

Onde os escritores escrevem – Parte 1 –

Phillip Roth.
Phillip Roth
Susan Sontag photographed by Annie Liebovitz #writers #workspaces #sontag
Susan Sontag

Aonde se esconde o escritor? Eu tenho que para melhor fluir a escrita é necessário espaço, silêncio e luminosidade controlada. Longe dos burburinhos e falatórios. Nesta série de fotos, grandes mestres, são fotografados no seu ambiente de trabalho.  Caóticos.

Stephen King at work #writers #workspace #stephenking
Stephen King
Albert Einstein at his desk: "If a cluttered desk signs a cluttered mind, of what, then, is an empty desk a sign?" #writers #workspace #einstein
Eisntein

 

Anais Nin and her diaries in a bank vault
Anais nin

 

Anatole France – Voce conhece?

anatoleEste senhor, de perfil luminoso, cuja obra não foi traduzida em sua totalidade para o português  e cujo crime foi ter ganho o Nobel de literatura em 1921, concorrendo contra Bernard Shaw, H.G. Wells, W. Yeats e Henri Bergson, chama-se Anatole France.   Desconhecia sua obra até descobrir a primorosa tradução de Marcos de Castro, editada pela Record,  “O crime de Sylvestre Bonnard”. É sem dúvida  um gigante da literatura francesa. Seu personagem Sylvestre Bonnard é  um dos mais simpáticos e cativantes   da  literatura produzida no século XIX. Deve ser complicado nascer e escrever no mesmo palco onde viveram nomes como Balzac, Proust, Baudelaire e tantos outros. Podemos resumir a literatura francesa num desenho, destes que exibem os traços, claros e precisos, de um Da Vinci ou Holbein. Arrisco escrever que a figura do jovem seria Rimbaud e a figura madura seria Anatole France. Para aqueles que fazem da leitura um caminho de aperfeiçoamento e descobertas, fica difícil, a medida que devoramos tudo que nos cai nas mãos, descobrir novos autores e obras que nos remetam as primeiras surpresas da leitura. Falo daquela sensação absurda que nos invade quando terminamos de ler um Kafka ou um Vitor Hugo, pela primeira vez. Euforia que mais se assemelha ao primeiro mergulho no mar. Depois tudo é uma tremenda festa! Até que conheçamos os poemas de Jim Morrison, a prosa corrosiva de Burgess ou até mesmo as vanguardices e ismos do século XX. Tudo se acalma para o leitor que atinge estes píncaros. Mas a grata surpresa, dos primeiros textos, volta em grande estilo quando descobrimos um novo autor. No meu caso em um estilo claro e bem polido. O estilo de Anatole France. O mesmo estilo que influenciou Hemingway, Conrad e tantos outros. Pena que haja poucas traduções em português. Terrível; a constatação de que tantos leitores experimentados não conheçam a obra deste parisiense da gema. Nenhum outro escritor, sem ofensa a Balzac e Proust, exaltou a cidade de Paris, em todo seu esplendor e glória, com tanta maestria e paixão. Quando questionado sobre a arte de escrever dizia apenas três palavras: “Clareza, clareza e clareza.”

M.N.

Entrevista de Mario Vargas Llosa com Garcia Márquez –

Mario Vargas llosa

Entrevista de Mario Vargas Llosa com Garcia Márquez quando ainda eram amigos. Ambos Premio Nobel de Literatura, conversaram, em Lima, sobre o significado de ser escritor. Reproduzimos este lindo diálogo sucedido em uma manhã de 1967! Publicada no jornal El Comercio, em 12 de dezembro de 2010, por Jorge Zavaleta.

Como você crê que você vale como escritor? Perguntou Mario Vargas Llosa.. “Tenho a impressão de que comecei a ser escritor quando me dei conta de que não servia para nada”, respondeu Gabriel García Márquez. ”Agora, não sei se desgraçada ou afortunadamente, creio que é uma função subversiva, será? No sentido de que não conheço nenhuma boa literatura que sirva para exaltar valores estabelecidos.”, completou.
Gabriel García Marquez
Gabriel García Marquez

Assim começou o diálogo sobre “A novela na América Latina”, durante as manhãs de primavera de 5 a 7 de Setembro de 1967. Foi na Faculdade de Arquitetura da UNI, principal centro científico e tecnológico do Peru, quando ambos já eram notáveis novelistas. Décadas depois seriam consagrados com o Premio Nobel de Literatura., Gabo em 1982 e Mário em 2010.

VLL. Essa inconformidade que expande a literatura no âmbito social pode ser prevista, calculada pelo escritor quando seu livro chega aos seus leitores?
GM. Não. Creio que se é previsto, que se é deliberada a força, a função deliberada do livro que se está escrevendo, a partir deste momento o livro já é ruim. Mas, antes quero estabelecer isso: quando aqui dizemos escritor, quando aqui dizemos literatura, estamos nos referindo à novelistas e a novela, porque de outro modo poderia prestar-se a más interpretações. Creio que o escritor sempre está em conflito com a sociedade.
VLL. Que outros fatores seríam os preponderantes, quais elementos determinariam a realidade da obra literária?
GM. Para mim a única coisa que interessa no momento de escrever é se a ideia dessa história agrada o leitor e se eu estou totalmente de acordo com essa história. Agora estou preparando a história de um ditador imaginário que supõe ser latino americano e tem 182 anos. O que quero neste caso é expressar que na imensa solidão do poder não há arquétipo melhor que o ditador latino americano que é o grande monstro mitológico da nossa história.
VLL. Uma pergunta mais pessoal… porque ao falar da solidão eu recordava que é um tema constante em todos os seus livros, inclusive o último se chama, precisamente, “Cem anos de solidão”, é curioso, porque seus livros sempre tem muita gente ou são muito populosos…
GM. Na realidade não conheço ninguém que em certa medida não se sinta só. Este é o significado da solidão que me interessa. Temo que isto seja metafísico e reacionário, e que parece exatamente o contrário do que eu sou hoje, do que quero ser na realidade, mas acredito que o homem está completamente só. Acho que é parte essencial da natureza.
VLL…Eu gostaria que nos falasse deste elemento que chamaríamos de cultural, quais literaturas mais te influenciam quando escreve seus livros?
GM. Eu conheço bem Vargas Llosa e sei aonde esta me levando. Quer que lhe diga que tudo isso vem da novela de cavalaria. E em certo modo tem razão. Um dos meus livros favoritos que sigo lendo é o “Amadis de Gaula” e creio que é um dos grandes livros da história da humanidade, apesar de Llosa achar que é “Tirante el Blanco”… Toda esta liberdade narrativa desapareceu depois dos contos de cavalaria, onde se encontravam coisas tão extraordinárias como as que encontramos agora na América Latina todos os dias. A similaridade entre a realidade da América Latina e a novela de cavalaria são tão grandes…
VL. Talvez poderíamos chegar a falar do realismo na literatura, quais são os limites do realismo e, ante um livro como o seu, aonde ocorrem coisas muito reais, muito verossímeis juntamente com coisas tão irreais, como essa da moça que sobe ao céu em corpo e alma, ou o homem que promove 32 guerras, e o derrotam em todas e ele sai ileso de todas… Você se acha um escritor realista, um escritor fantástico, ou acha que não se pode fazer esta distinção?
GM. Não, não. Eu acho que em “Cem anos de solidão”, eu sou um escritor realista, porque creio que na América Latina tudo é possível tudo é real. Creio que temos que trabalhar na pesquisa da linguagem e nos relatos de forma técnica, afim de que toda fantástica realidade latino-americana crie forma em nossos livros. Assumir nossa realidade, pode contribuir com algo novo a literatura universal…
VLL. Tem um capítulo onde eu creio que vc escreveu com muita mestria o problema da exploração colonial na América Latina. Eu gostaría que vc explicasse melhor
GM. A historia de Macondes e as bananeiras é totalmente real. O que acontece é que há um destino tão triste na realidade latino-americana, inclusive em casos como das bananeiras que é doloroso é tão duro, que você tem que converter em fantasmas. Quando a companhia Bananeiras começou a chegar a esse povoado gente de todo o mundo e era muito estranho porque neste povoado na costa atlântica da Colômbia, teve um momento em que se falavam todos os idiomas. As pessoas não se entendiam; e havia a tal prosperidade, isto é, o que significa prosperidade, os que queimavam bilhetes dançando “la cumbia” , … Os trabalhadores reivindicaram o pagamento em dinheiro e não em títulos e o que aconteceu foi que o exército cercou os trabalhadores na estação e deu-lhes cinco minutos para sair . Ninguém foi removido e todos assassinado.
VLL. Porque não nos conta como conciliar a actividade de jornalista com a literária, antes de escrever “Cem anos de solidão”, você acha que essa atividade paralela dificultava exercer a sua vocação?
GM. Veja bem, durante muito tempo eu acreditava que ajudava, mas, na realidade tudo dificulta o escritor, toda actividade secundária. Eu não estou de acordo com o que se dizia antes:: que o escritor tinha que ser misserável para ser bom escritor. Eu creio que o escritor trabalha muito melhor se tem seus problemas domésticos e econômicos resolvidos, e que se tem uma boa saúde, melhor estão seus filhos e sua mulher, dentro dos níveis modestos em que os escritores podem se mover, sempre escreverão melhor! […]
Porém vc, Cortázar, Fuentes, Carpentier entre otros, estão demonstrando, com vinte anos de trabalho, rompendo o curso, como se diz, que os leitores acabam respondendo. Estamos mostrando que na América Latina podemos viver dos leitores, que é a única sobrevivência que podemos aceitar.

Laranja Mecânica 50 anos depois!

 

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O clássico “Laranja Mecânica”, que deu origem ao filme, completou 50 anos em Novembro. Ganhou uma edição especial. O livro, escrito por Anthony Burgess em 1962, vem agora, com material inédito. Trechos restaurados,  entrevista inédita com o autor e artigos escritos por ele, dizendo por que escreveu o livro e a peça de teatro, e até o que achou do filme. Enfim, nestes tempos de vampiros, gravatas, algemas e heróis pasteurizados o livro de Burgess é um porto seguro para quem gosta e procura boa literatura. A edição é primorosa, com ilustrações, exclusivas para a edição brasileira. Os desenhos foram feitas pelo cartunista Angeli, pelo britânico Dave McKean e também pelo argentino Oscar Grillo. Certamente o livro será um item de colecionador nos próximos anos. É raro termos edições bem cuidadas e com tanto esmero nas prateleiras. Para quem não conhece o autor, fica a dica. Marco da ficção e da cultura pop do século 20, “Laranja Mecânica” trata de temas  como os limites das liberdades sociais e do controle social exercido pelo Estado, tão significativos hoje quanto na década de 1960. O protagonista da história é Alex, líder de uma gangue londrina que, depois de preso, passa por um tratamento com fins de inibição de seus impulsos anti-sociais. O livro ganhou as telas dos cinemas em duas ocasiões. A primeira com  o filme “Vinyl”, dirigido por Andy Warhol em 1965, que teve o roteiro baseado no livro. A segunda, e mais conhecida, com a adaptação dirigida por Stanley Kubrick, em 1971. Um belo presente de Natal para todos os bibliófilos e fãs das edições de luxo! Longa vida aos livros….Feliz Ntal!